Infusão

Sonhei que estava olhando pela janela do escritório da minha casa e escuto um estampido, no que corro para a cozinha.

Chego na porta da cozinha, vejo que o chão está alagado e há uma névoa no ar. Olho pro aquecedor e dele vaza muita água quente, quentíssima.

No meio da cozinha, em cima de uma cadeira, com as portas dos armários superiores abertas, segurando uma caixa de chá, está minha tia, espalhando pela água fervente que cobre todo o piso, vários saquinhos de chá. E realmente há vários quadradinhos brancos boiando por todos os lados.

Ela vira-se para mim e diz: “Já está quase pronto!”

Sinto o cheiro adocicado de chá no ar e acordo.

Quebra-mar

Sonhei que estava sentado na areia de uma praia, vestido como se estivesse indo pro trabalho, mas descalço.

Era de tarde e o céu estava nublado.

Diante de mim, não muito longe, um motorhome, destes compridos com janelas largas. Era velho e parecia ter abrigado uma família por muitos anos. Ele estava posicionado de tal maneira que eu só podia vê-lo na minha frente, e o mar eu via pelos lados, ao largo da praia.

As ondas quebravam na areia e iam ficando cada vez mais revoltosas e espumantes, cada vez maiores, mais violentas.

Em dado momento eu vi uma onde crescer muito e arrebentar-se muito próxima ao trailer, entretanto eu não saía de lá, continuava sentado na areia, apoiado com as mãos pra trás.

Um onda enorme tomou forma e subiu subiu subiu e chocou-se contra o trailer, fazendo um estrondo assustador. Eu via a água espalhar-se para cima, para os lados e por baixo, e os vidros das janelas sacudirem e estalarem.

A espuma da água caía sobre mim como se fosse uma chuva salgada.

Outra onda ainda maior cobriu o veículo-casa e arrebentou-se sobre mim com tanta fúria que cheguei a fechar os olhos de medo e espanto, mas incrivelmente a água não me atingia. Parecia que eu estava protegido por uma redoma invisível.

A água agitou-se formando vagalhões e turbilhões à minha volta e eu quase podia tocá-la, tão real era a sensação. Por algum tempo eu só via tudo verde escuro, porque estava debaixo de milhares de litros de água do mar.

Toda esta água foi puxada de volta e as ondas voltaram a quebrar-se mais calmamente, como num dia normal e não numa ressaca como parecia.

Acordei.

Vinte e um

Sonhei que eu estava na sua casa. Sentada na sua cama e você, sentado na cama do seu irmão. Eu te olho e você me respondiecom um olhar de ternura. Tenho em minhas mãos um caderno, do tamanho de um caderno pequeno, com as folhas decoradas. Há flores roxas, rosas sobre uma moldura amarelada. As folhas não tem linhas. Há uma amiga olhando, de longe, cuidando de nós dois.

Pego uma caneta e escrevo uma frase no caderno. Arranco a folha e te entrego. Você vira a folha, o outro lado não tem desenho, é uma folha branca. Você escreve nas costas da folha e me devolve. Eu leio, sorrio pra você, dobro a folha e escrevo em outra folha outra frase que não me lembro. Como num ritual, você lê, escreve nas costas da folha e me entrega. Incomodada com esse ritual, pego outra folha e escrevo: “Chega de palavras, eu quero um beijo”. Você pega o papel, lê, analisa a frase. Corta a folha ao meio e escreve alguma coisa que não dá tempo d’eu ler.

Acordo com uma saudade sufocante de você.

Percebo que hoje é dia vinte e um e penso que, como sempre, você continua me dando meias respostas em folhas de papel partidas ao meio.

Em cima do trem

Sonhei que Estela e eu estávamos em cima de um trem em alta velocidade, passando por campos, plantações, bosques e colinas. Estávamos sentados com as pernas cruzadas, como os iogues, tranqüilos, e não éramos afetados pelo balanço do trem.

Virei meu rosto para o lado vi vento nos cabelos dela e percebi que ela estava semicerrando os olhos, por conta da velocidade do vento batendo contra a gente. E aí eu falava: “Acho que já falta pouco pra gente descer.” E Estela não respondia.

No sonho eu sabia que havia alguém nos esperando em uma estação.

Ficamos muito tempo passando por estes lugares assim, como se fosse o interior do país, e acordei, antes que chegássemos a qualquer lugar.

O Fim do Mundo e a Livraria

Não costumo ter sonhos inquietos como o Pacha. Meus sonhos são sempre calmaos e com pouca aventura. Na maioria das vezes são contemplativos.

Mas hoje eu vi um avião gigantesco voando sem a cabine dos pilotos. E soube que aquilo era a marca do fim do mundo. Todos começaram a correr. O mundo é novo, com algumas coisas muito modernas, como esse avião. Mas ele está destruído e vai cair. Leva tempo para cair e quem sou eu para ficar ali olhando isto acontecer? Eu sou medrosa, seguro na mão do homem e saio correndo, abaixo entre os escombros de alguma outra destruição que não sei qual é. Calmamente, me ponho a esperar um elevador, como se minha sorte estivesse ali dentro. Mulheres, homens, conversas de despedida. É tudo bem cinza e o avião acaba de cair.

Desço no ponto de ônibus da São Francisco Xavier e vejo algumas coisas no chão. O homem limpa o chão e tem uma máquina fotográfica. O fim do mundo já não me importa. Eu pego uma chave e começo a limpar o piche da calçada. Há piche grudado numa raiz de árvore. Faço força, esfrego, raspo o piche. Minhas mãos estão sujas.

Antes de descer do ônibus estive em uma livraria. Estava vazia, sem nenhum atendente. Andava de mãos dadas com o homem que fugiu comigo do fim do mundo. Para mim, a salvação era a livraria. Saí a procurar um GuíaT, um GuíaT 2010. O fim do mundo está próximo, eu sei, mas só me importo com os livros e em não ficar perdida. Ando pelos corredores da livraria, pergunto a um guarda onde fica o jornaleiro mais próximo. Percebo que a livraria é uma cidade. Sigo as instruções, encontro o jornaleiro, pego o GuíaT e continuo na livraria. Afinal de contas, lá é o mundo, lá é a cidade e, é muito provável, que o avião se choque contra ela em três, dois, um…

Café com a diva

Sonhei que estava na sala de uma casa humilde, sentado no sofá com uma mesinha de centro à minha frente e uma poltrona ao lado.

Vinha da cozinha Omara Portuondo, trazendo numa bandeja dois cafés servidos em copos de geléia e um prato com bananas fritas.

Conversamos durante muito tempo, em espanhol, e ela me deu muitos conselhos.

Em seguida chegaram outras duas mulheres que acreditei serem sobrinhas dela, ou vizinhas, e me bateu vergonha de estar ali.

Acordei e não lembro de nada do que conversamos.

Remetente distante

Sonhei que meu porteiro me entregava um envelope de papel pardo com caracteres estranhos escritos nele. O porteiro mesmo admitia que sabia que era pra mim por causa do endereço, porque era o único que ele entendia, visto que até os selos pareciam absurdos.

De fato era um envelope estranho, e na portaria mesmo eu comecei a abri-lo, mas quando eu me sentei já não estava na portaria e sim na sala do estúdio em que trabalho.

Dentro do envelope estavam vários postais de paisagens estranhas e de lugares que não eram do Brasil e todas tinham dedicatórias e levavam meu nome nelas, só que em caracteres que nunca vi, de maneira que não entendia nada do que diziam.

Fiquei com a sensação estranha e ruim de que fosse o espólio de algum ente querido que estava longe e havia morrido.

Acordei com muita enxaqueca.

Arco-íris móvil

Chove muito. Muito mesmo. Da minha varanda olho pro morro em frente a minha casa. Ele é lindo, muitas árvores, mato, tudo muito verde. Tenho certeza de que é verão e a chuva me deixa feliz. O Tico está na sala da minha casa, vendo tv, conversando com meus pais. Não sei bem ao certo porque o barulho da chuva é muito alto.

De repente vejo um arco-íris. Ele está praticamente reto e isso é muito estranho. É como se ele fosse uma linha sobre a montanha. Grito pelo Tico, ele não escuta de primeira. Enquanto espero ele chegar o arco-íris começa a se mover, se curvar, se tornando o que de fato é um arco. Mas ele não pára. Continua se curvando até quase ficar horizontal.

Quando o Tico chega o arco-íris está quase vertical. Ele olha, me olha e diz com a sua felicidade de sempre: “Caramba, mô, que legal!”

Farelos

Sonhei que estava na cozinha da minha tia onde fui criado e em cima da mesa havia um prato com um bolo de fubá feito em casa.

Escondido, peguei uma faca e tirei uma boa fatia do bolo, e olhando-o de perto, pude não só sentir o seu perfume como também ver os grãos de erva-doce.

Dei uma mordida e enquanto mastigava, olhei outra vez para o bolo e no lugar da erva-doce eu vi piolhos, gordos, movendo-se por entre os buraquinhos da superfície da fatia.

Tentei cuspir o que estava mastigando, mas quanto mais colocava para fora, mais massa mastigada havia para cuspir.

Nas alturas

Sonhei que estava sentado na copa de uma palmeira muito alta e sentia o vento frio que fazia lá em cima.

O mais desagradável era estar preocupado todo o tempo com equilibrar-me, porque se eu me mexesse um pouquinho já a palmeira tombava para um lado, e logo me movia mais um pouco e já tombava para o outro, e assim tinha que me manter muito reto e vigilante, porque senão seria derrubado lá de cima por conta do balanço.

Não sei quanto tempo durou, mas acordei muito cansado pelo esforço.

Tiroteios aterrorizam a Zona Norte nessa manhã de sábado

Faz uma semana que esses tiroteios chegaram, ando pelas ruas tensa, sem saber que ônibus pegar e quando sentir medo. Pelo terror de passar por uma blitz da Força Nacional na noite de quinta-feira, escutar helicópteros passando sobre a minha casa, tive um pesadelo hoje. Acordei suando.

Dentro do ônibus vejo os carros voltando em marcha-ré de uma curva que me leva até a outra rua por onde tenho que obrigatoriamente passar. Começo a gritar e peço ao motorista do ônibus abra as portas. Pessoas andam abaixadas pelas ruas, mas ainda não tivemos tempo de aprender a andar nos arrastando como em cenas de filme de guerra. Uma senhora se esconde atrás de um carro, exatamente igual a foto de ontem da capa d’O Globo. Desço do ônibus e ando em direção a uns prédios, casas, garagens. Uma bala cai no chão, amassada, ainda que desesperada me abaixo e pego o tão falado projétil. Guardo no bolso e continuo correndo. Uma mulher me grita e diz que é para eu me esconder dentro da garagem da casa dela. Entro, olha pelas janelas da sala e vejo a imensa favela tão próxima que sinto um desespero e corro para o outro lado. De dentro da casa ela me diz: é mais seguro aqui, quanto mais perto, menos tiros. Ela me oferece um copo d’água, rejeito porque pra mim os tiros vem como água, num barulho ensurdecedor. Não sei onde estou, vou chegar atrasada no trabalho, minha mãe precisa saber que a amo, meus amigos e esses tiros, ninguém sabe o que aconteceu nessa manhã de sábado em plena Zona Norte. Sento numa cadeira e choro.

Acordei suando. Abri a janela pros tiros e voltei a dormir.

Entranhas

Sonhei que estava terminando de abotoar minha camisa diante de um espelho, como quando estou indo para o trabalho,  e noto que ela está molhada em minha barriga.

Começo a desabotoar os mesmo botões e percebo que em minha barriga, logo abaixo da linha da costela, há uma portinhola. Vejo também que pelas frestas desta portinhola vaza água.

Assustado, aperto com força a portinhola contra mim, com medo de que ela se abra e todos os meus órgões escorram para fora.

Acordo.

Gaveta

Sonhei que estava na cozinha da minha casa atual e ao abrir a gaveta do armário havia, no lugar onde deveria estar o porta-talheres, pequenos ossinhos brancos, como se fossem ossos da mão e dos dedos, todos soltos.

Eram muitos e faziam barulho quando eu remexia, procurandopor um garfo, que obviamente não estaria ali.

Na ladeira

Estava na rua, andando sem rumo. Me dei conta que estava perto da sua casa. Ali, bem ali, numa dessas ladeiras do bairro Humaitá, bem onde você não mora. Resolvi subir pra te dar um oi, afinal de contas, não te vejo há tanto tempo. Começo a subir a ladeira, é muito íngreme, mas lá de baixo te vejo com uma vassoura na mão, varrendo a entrada do seu prédio. Você, você tão dourado refletindo as sombras da copa da árvore que te fazia varrer a calçada. Sorri discretamente, você me viu e sorriu indiscriminadamente. Um sorriso imenso, quase do tamanho da sua dedicação ao limpar as folhas que teimavam em cair. Continuo subindo a ladeira olhando pra você que me espera de braços abertos. A ladeira não me deixa subir, é como se ela ficasse cada vez mais íngreme quanto mais me aproximo. Caio de costas no chão, você ri pra mim e me dá a sensação de que eu consigo. “Vem, você consegue”. Eu insisto e você me dá a mão. A gente se olha e você me abraça. Me leva pra dentro do prédio. Ela está lá, de novo, como sempre esteve. Mas não sinto raiva. Olho e comprovo que as minhas suspeitas sempre estão certas, assim como está certo você ser dourado como o sol.

Vou embora. De mãos dadas com duas amigas me perco por corredores de um shopping muito confuso. Já te esqueci, já não sou mais do mesmo espaço de sonho que você. Procuramos por uma loja de coisas masculinas, mas não sabemos o nome. Sempre rindo constatamos que estamos perdidas. É divertido estar perdida num lugar que tem placas indicando a saída. As cores são claras, as vitrines mostram coisas de casa. A loja não chega nunca. Acordo com o barulho do seu sorriso nos meus ouvidos. Não, eu não subiria mais esta ladeira por você.

Às traças

Sonhei que estava em uma festa muito cheia vestindo a combinação de roupas que mais gosto em mim: camiseta de manga comprida e camiseta normal sobrepostas. Porém, me dei conta de que a camiseta de cima estava toda furada por traças e fiquei com vergonha, tirando-a.

A camiseta de manga comprida de baixo também estava muito furada pelas traças e a tirei também, quando percebi que havia outra embaixo desta, também furada.

As pessoas começaram a me rodear, vendo a cena e comentando, e eu continuei tirando as camisetas, uma após a outra, todas furadas por traças, e elas não acabavam.

Não sei quanto tempo fiquei preso neste processo, mas acordei cansado.

O button

Sonhei que meu amigo Moacir e eu estávamos num ponto de ônibus em Osvaldo Cruz, bairro em que passei minha adolescência. Esperávamos o ônibus que nos levaria para Realengo, para uma festa.

Levava às costas uma mochila antiga, cheia de buttons,  como a que usava anos antes, e duas meninas com pinta de roqueiras, pegaram um dos buttons e estavam predendo-o na alça da sua mochila. Irritado pelo roubo, dei-lhe um tapão na mão, que fez o button voar para muito longe, para dentro de um bar.

Este bar ainda existe, e fica na parede da estação de Osvaldo Cruz. Recebeu o nome de “Bunda de Fora”, porque as pessoas ficam de costas para a rua, onde está o ponto de ônibus.

Entrei no “Bunda de Fora” e procurei pelo meu button, mas não o encontrei. Meu amigo ria da situação, e as duas meninas roqueiras ficaram me ofendendo por causa do tapão que eu dei.

O ônibus estava vindo quando eu achei o button, perto de onde uns homens muito estranhos e sujos estavam mijando no muro da estação, então desisti de pegá-lo.

Acordei sem saber qual era o button, porque durante todo o sonho eu só via o seu verso, onde fica o alfinete.

Foi um sonho desagradável.

As cobras

Primeiro sonhei que te encontrava, perguntava como você ia, como estava a vida, afinal de contas os anos passam e eu continuo me importando. Enquanto sua cara se desvanecia, eu ouvia sua voz me dizer, lentamente: “- só estarei bem, meu amor, quando estiver, definitivamente, ao seu lado.”

No dia seguinte sonhei que andava no fusca do meu tio que morreu faz dois anos. Não sei ao certo se é ele quem dirige, mas minha irmã e minha mãe estão no banco de trás, junto comigo. A janela do motorista está aberta pela metade e nós andamos por uma estrada de terra. A estrada se parece a uma estrada que leva a antiga casa do meu tio, em Miguel Pereira. Eu, dentro do carro, olho pra estrada que passava. Envolta em capim sujo de poeira. Envolta na estrada suja de poeira uma cobra. Para ser mais específica minha mãe grita: “- uma cascavel”. Olho para o que resta visível da cobra e vejo seu rabo de chocalho. Entre risadas continuamos no caminho do carro. Como se tivesse ouvido as risadas, de repente, salta de dentro do capim para a janela do motorista. A cobra. Certeira para dentro do carro. Todos paralisados, eu me mexendo. A cobra vem, certeira, e morde minha mão direita. Minha mãe grita para fecharem o vidro. A cobra fica esmagada ao meio. Minha irmã grita que o veneno dessa cobra faz o corpo gangrenar. E eu, em choque, olho as duas marcas roxas nas costas da mão. Como viver sem minha mão direita?

Entrecortado

Esta noite os sonhos foram muito irregulares e picotados.

1º. Sonhei que era de noite e estava em um bairro que misturava outros dois em que já vivi. Quatro pessoas se aproximaram de mim, demonstrando uma simpatia exagerada e visivelmente com segundas intenções. Eu as empurrava para longe de mim, mas elas eram insistentes e então corri delas.

2º. Sonhei que escalava um prédio de olhos fechados, e sentia apenas a textura áspera do concreto e o vento frio entrando pela minha roupa de dormir. Sabia que estava muito alto, sabia que estava indefeso lá em cima, mas precisava subir mais, no escuro total.

3º. Sonhei que estava na minha casa, mas não era a minha casa. Tentava acender as luzes mas os interruptores nem se quer funcionavam. Aquilo me deu muita agonia, porque eu queria ver a minha casa. Tateando pela penumbra, me deparo com um guarda-roupas de duas portas e gaveteiros na parte de baixo bem no meio da sala. Era o guarda-roupas que usava quando morava sozinho. Me perguntava: “O que ele faz aqui?” Abri as portas e tirei de dentro um frasco de perfume. Desatarrachei a tampa e senti o cheiro adocicado que vinha de dentro. Estava vazio.

4º. Sonhei que estava na minha casa atual, que estava acordando e levantava da cama, ia para a sala e encontrava todas as almofadas do sofá rasgadas e com seu recheio espalhado por todo lado. Sabia que o meu cachorro havia feito aquilo, mas não o encontrava.

5º. Sonhei que estava na cozinha de um restaurante e dois cozinheiros estavam preparando peixes num prato. Os peixes eram muito grandes, como bagres, e estavam crus. Eles os dispunham em formato de X num prato grande, e eu pensava: “Parece o logotipo da Hering”.

6º. Sonhei que estava deitado numa cama que não era a minha e que a roupa de cama estava toda grudada em mim, como se pequenas gotinhas de cola estivessem espalhadas pelo meu corpo. No entando, quando eu tentei levantar o lençol eu senti dor e gritei. Meu corpo estava coberto de chagas.

7º. Sonhei que estava preparando comida para levar na marmita, e estava muito cheirosa, mas quando abria as panelas elas estavam vazias. Abri a geladeira e estava vazia. Me perguntava de onde vinha o cheiro, e quando abri as gavetas dos talheres havia um prato feito lá dentro.

Acordei com o despertador.

Beira mar

A sala do meu apartamento dava prum condomínio lindo. Palmeiras, ruazinhas, canteiros com flores. Meu andar era um dos últimos, prédio gigante, o dia estava lindo, sol, céu azul, poucas nuvens. A janela da minha sala era toda de vidro, como se fosse um panorama, meu apartamento um aquário com uma vista lindíssima. Era próprio, o apartamento. Um lado para o condomínio, o outro para a praia do Leblon. Aluguel incrivelmente barato: R$400,00. Condomínio justo para tudo o que tinha disponível: R$700,00 para um prédio no Leblon com academia, piscina e pessoas bonitas.

Algumas pessoas estavam comigo, não me lembro quem, mas eu tinha visitas.

De uma hora pra outra o mar começa a bater. Ondas cada vez mais altas. Eu, no alto de meu prédio, janelas abertas, assisto ao espetáculo das ondas que atingem a minha janela, toda de vidro. Realmente um aquário de ar. Tudo tomado por ondas azul escuro, muita água, fico desesperada, penso que o vidro poderia quebrar, as outras pessoas achando tudo normal e alguém me lembra de que estamos muito alto e estamos a salvo. Me tranquilizo.

O tempo melhora. As ondas voltam a ser azul claro, tranquilas, sem muita espuma. Chego perto da janela e olho para o condomínio abaixo: tudo normal. As ruas, as pessoas, o chão molhado com poças refletindo o sol que voltou a brilhar.

Pego o elevador (são dois elevadores, um do lado do outro) com algumas pessoas, outras entram no outro elevador.

Pula.

Estou parada, rosto ao vento, sei que é perto do meu prédio. Tenho um cigarro de folha de caderno nas mãos, está aceso. Trago profundamente e solto a fumaça pelo nariz. Repito muito calmamente a cena, várias vezes. Meu corpo é tomado por um calor delicioso que vem do cigarro, o tempo é frio, beira mar. O cigarro acaba e penso: “Quero fumar de vez em quando. Marlboro, filtro branco de preferência. Mas Marlboro não vende a varejo… Vou ser obrigada a comprar um maço e guardar na gaveta do meu criado mudo. Tomara que ninguém veja.”

Colossal

Há uma semana atrás eu sonhei que estava num quarto que não era o meu e de repente todo o ambiente tremeu muito forte e fui parar próximo à janela com o solavanco. No mesmo instante me debrucei no parapeito e vi que era uma rua estreita, ladeada por edifícios de no máximo dez andares, não muito modernos.

O mais estranho era que na esquina eu pude ver um gigante, que vinha caminhando apoiando-se nos prédios, destruindo suas fachadas, janelas e varandas, pisando nas pessoas que estavam nas calçadas. Ele era estranho, porque em tudo se parecia a um anão, não fossem suas proporções colossais.

Tinha a cabeça desproporcional ao seu corpo, e pernas e braços tortos para dentro, com mãos e pés com dedos calosos. Não tinha nenhum pelo no corpo e também não tinha sexo. Seus dentes eram todos podres e tortos, sua pele acinzentada, como os aborígenes australianos, e ele era mau, emanava maldade.

A rua era muito estreita para ele e andava alguns passos e limpava um pé no outro, retirando os restos das pessoas que ele pisoteava, igual quando tentamos tirar areia da praia dos pés. Já muito perto da janela em que eu estava, ele pisou em um carro estacionado, com pessoas dentro, e com o seu peso o carro afundou na calçada e ele ficou com o pé meio preso.

As pessoas na rua e dentro do carro gritavam desesperadas. Como se não quisesse mais ouvir aquilo, empurrou com o pé os entulhos da calçada e que caíam dos prédios para dentro das janelas sem vidro do carro, soterrando as pessoas dentro.

Quando passou por mim, e eu estava mais ou menos na altura dos seus olhos, me escondi atrás da janela, para que ele não me encontrasse, mas ainda assim pude ver que seus olhos eram amarelados, como alguém que sofre do fígado, e em cima de si havia poeira, terra, e pedaços de pessoas.

Corri para a porta, fugindo apavorado e acordei gritando.

Este sonho me lembrou um quadro muito impactante do Goya chamado “O Colosso“.

Albinismo

Esta semana eu sonhei que estava no meu quarto, mas não o atual, o quarto em que dormia, há quatorze anos atrás, pouco antes da minha mãe morrer.

Embaixo do sofá (porque eu não tinha cama) havia uma caixa de sapatos da Sapasso, que embora eu não conseguisse ler, porque as letras se embaralhavam, eu sabia que era da Sapasso, pelo formato do logo.

Olhei em volta, para me certificar de que não havia ninguém por perto, e abri, me assustando com o seu conteúdo.

Dentro havia um rolo de barbante, uma lagartixa branca, uma barata branca e uma borboleta branca.

A lagartixa estava de cabeça para baixo, presa na tampa da caixa e não se movia, só me olhava com os olhos muito vermelhos, meio transparentes, e a barata estava morta, com as pernas encolhidas, como quando elas morrem por veneno. Porém, a que mais me interessou foi a borboleta branca, porque ela mexia as asas muito lentamente e elas eram feitas de renda, como toalhas de mesas.

Ela voou da caixa e ficou farfalhando na persiana da janela.

Nisso aparece uma mulher que não conheço e não conseguia ver direito o rosto, e já não é mais o meu quarto, era um posto de gasolina. Segurando a minha mão disse:

- Você a deixou fugir. Me empresta dinheiro?

Pedi desculpas e lhe dei tudo o que tinha no bolso.

A figura dela me passava uma terrível sensação de abandono e mau presságio. Quando eu procurei por ela já tinha ido embora.

Fechei os olhos com força e acordei.

Sensações

Não tenho tido muitos sonhos grandes, com longas histórias e tramas essas semanas. O que acontece são sonhos pequenos, mas com sensações muito marcadas.

Um deles se tratava do seguinte:

- Estou no metrô com minha irmã. Estamos conversando animadamente algo que não consigo gravar o que é. O metrô para em uma estação e segue o caminho. Percebo que ele pegou o trilho errado, pegou o trilho do metrô que vem em sentido contrário. Tenho a nítida sensação de que vamos bater, nos chocar, um desastre, mas as pessoas não notam, ainda que o maquinista pare o carro e dê marcha-ré. Ele volta numa velocidade grande. A sensação é horrível, a certeza de morte me deixa pasma. Acordo.

Os outros foram de ontem pra hoje.

- Duas pessoas me entregam um pacote pequeno e muito bem embrulhado, assim, embrulhado como se ninguém mais pudesse saber o que há ali dentro. Me dizem que ninguém pode me ver com esse pacote, mas que só eu poderia ficar com ele, o que está ali dentro tem tudo a ver comigo e só eu poderia guardar com o cuidado necessário. “Corra”, me dizem. Escondo o presente e corro. Corro muito, com uma sensação incrível de felicidade e desespero. Corro, subo uma montanha e corro para descer, correndo sem parar. Resolvo parar no alto de uma rua. Abro o pacote. Acordo.

Lembrei mais um:

- Estou numa montanha. É Miguel Pereira e ao lado da montanha está minha casa, a casa onde estou dormindo enquanto tenho este sonho. Olho fixamente para as montanhas e tenho algumas fotografias dessas montanhas nas mãos. Estou com uma grande amiga e ela olha para as fotos e para a paisagem. Ficamos muito tempo comparando as fotos e as montanhas, para ver se muita coisa mudou. De fato só as estações mudaram, tudo continua igual. O orgulho me toma e acordo rindo.

O outro foi o mais engraçado… Porque sonhei que vinha aqui contar essas sensações e o Pacha tinha publicado um sonho incrível, todo fragmentado. Mais uma vez não consegui guardar nada na memória, mas o orgulho de mais um texto no blog e a frustração de não poder escrever tomaram conta do sonho. Acordei sem saber se realmente ele havia postado alguma coisa. É, era sonho, ele não postou.

Cabeça de Cavalo

Depois de uma perseguição numa estrada escura, escapei entrando numa estrada de terra. Uma curva grande, pra direita. Me vejo descendo a curva dentro de um carro. É tudo cinza, tudo terra, pedras, barro cinza, nuvem cinza, nublado, fim de tarde sem chuva.

Entro em casa. Minha outra mãe me espera sem sorrir, porque não tem rosto, não tem mãos, é só uma aura cinza clara que segura uma pequena cabeça de cavalo nas mãos, uma cabeça fora dos padrões de tão pequena. Ela me pede carinhosamente:

- Filha, vá ao açougue e venda essa cabeça de cavalo. Ela deve pesar por volta de uns dois quilos no máximo. O quilo custa R$1,60.

Obediente, seguro a cabeça pela crina. A cabeça, diferente de minha outra mãe, sorri pra mim. Um sorriso medonho, os olhos vazios, dentes enormes, mas proporcionais ao tamanho da cabeça. Não pesa muito mais que um quilo e meio.

Subitamente estou no açougue. Está escuro, tudo é de madeira tosca e cinza. Cinza como todo o sonho. Há uns potes de vidro em cima do balcão e uma balança com uma travessa de vidro cheia d’água. Naturalmente chamo o açougueiro e digo:

- Quero vender essa cabeça de cavalo.

- Coloque aqui na balança.

Calmamente encaixo a cabeça dentro da travessa e então ela se desfaz. A água fica turva, cinza, suja. E a balança pesa: 1,600kg. Minha mãe estava certa. Pego as moedas, orgulhosa, saio do açougue e acordo.

Ladrões noturnos

Há alguns anos atrás estava deitado no sofá da minha casa, onde normalmente dormia, logo da morte da minha mãe.

Já era muito tarde e ouvi um barulho estranho, no que abri levemente os olhos e pude ver que duas figuras sombrias estavam paradas na porta, me observando.

Fiquei congelado de medo e como não me movia, eles devem ter pensado que ainda estava dormindo. Caminharam lentamente até a minha estante e começaram a roubar as coisas que estavam lá, levando-os embora.

Mas eles faziam isso calmamente, pegam alguns livros, levavam para fora da sala, voltavam, pegaram a TV, levavam outra coisa, voltavam…

Deles só podia ver com alguma nitidez os olhos, todo o resto era como se fosse feito de alguma substância suja e esfumaçada, como se fosse algum tipo de vapor, ou nuvem de poeira que os envolvesse, e estando a sala na penumbra da madrugada, a visão deles era ainda mais perturbadora.

Quando terminaram de esvaziar a estante, um deles virou-se pra mim e começou a me ofender com as piores injúrias e maldições que eu poderia imaginar, caminhando lentamente em minha direção.

Assustado, acordei e a sala estava vazia e eu sozinho em casa.

Badapía

Hoje de tarde eu tive um sonho em que estava numa casa estranha. Não que ela fosse estranha, mas que era uma casa que eu não conhecia.

Nela estavam pessoas que também não conheço, mas que eram amigáveis e solícitas.

No sonho eu estava cansado e precisava tomar um bom banho para poder ir deitar, no que eu pedi aos anfitriões que me dessem uma toalha e me apontassem a direção do banheiro.

Eles me deram a toalha e me disseram que o banheiro estava em obras, que usasse um cano debaixo da pia da cozinha.

Abri as duas portas com um acrílico craquelado, fazendo-se de vidro do armário, e entrei ali para tomar banho. O engraçado que como o vidro era meio amarelo, passava uma luz muito bonita por ele, deixando o pequeno cubículo em tom sépia.

Entretanto, era desconfortável despir-se ali, porque eu ficava entre uns canos e umas caixas que me pareceram guardar ladrilhos dentro. Além do cheiro típico de lugares úmidos e fechados por muito tempo.

Lembro ainda que antes de fechar as portas debaixo da pia, os donos da casa me acenaram do lado de fora, me dizendo que a torneira da esquerda era da água quente.

Acordei.

Um desastre natural

Quando criança sonhei que era noite e estava dormindo no quarto que ocupava na casa da minha tia, e pelas persianas da janela entrava uma luz muito forte, como se um holofote estivesse apontado para a casa.

Ouvi o barulho alto de uma ventania e gritos de uma multidão.

Ao abrir a janela muitas folhas entraram, e a luz forte e a poeira da rua trazida pelo vento me impediam de abrir completamente os olhos, mas pude ver as pessoas correndo desesperadas e apontando para o céu.

Quando levantei a cabeça eu me assustei: a Lua estava tão perto da Terra que era possível ver com nitidez as ranhuras do seu solo, as crateras como se fossem vales. O mundo estava acabando naquele momento, com uma colisão lunar.

Lembro de ter acordado com uma sensação muito ruim.

02/09

Não sei onde estou, mas sei que estou em uma loja olhando as barras de chocolate em promoção. Uma das barras custa $4,00. Não sei de que moeda se trata. Mas a caixa é de papelão, tamanho normal, vermelha com um grande Nestlé escrito em amarelo. Pego a caixa na mão e olho a data de validade. Lógico, penso eu, pra estar assim, tão barato, alguma coisa deveria estar errada e é a data de validade: 02/09. Me dou conta de que estou em tempo real, afinal de contas, estamos em 2009.

Chamo a vendedora. Chamo falando em espanhol. Reclamo da data de validade, um absurdo, mas no fundo no fundo penso que cinco meses não é quase nada para uma barra de chocolate. A vendedora me convence de que vale a pena comprar o chocolate, não havia percebido, mas dentro dele há um brinde.

O brinde me seduz e a vendedora abre a caixa quebrando uma das pontas. Ela puxa o brinde e me entrega: um pedaço de plástico com uma linha verde desenhada. É a linha A do metrô de Buenos Aires, a linha que eu usava quando morava lá. Percebo, no sonho, que há alguma coisa estranha, pois toda vez que esta linha é representada é em azul e não em verde.

Muda o plano. Não estou mais na loja, não há mais vendedora. Estou de frente para uma placa com um mapa das estações de metrô de Buenos Aires. Duas amigas estão junto comigo. Alguns caras desconhecidos. Olho novamente o mapa das estações e percebo que os nomes estão errados, alguma coisa como Acarrucho onde deveria estar Ayacucho. Pego meu brinde do chocolate e encaixo no mapa. Os nomes se corrigem magicamente, reconheço que estou em Buenos Aires pela estação Peru da linha E, a linha vermelha. Percebo então que meu brinde é como uma peça quebra-cabeça, o começo da linha A. A peça termina na estação anterior a minha. A peça termina em Ayacucho e a minha estação era Congreso.

Sinto uma tristeza imensa pela peça do quebra-cabeça, uma saudade incrível se instaura no sonho. Agora estou sentada em uma praça, a la argentinos, a tarde. O sol começa a se pôr. Minhas duas amigas conversam alegremente. Estamos em Buenos Aires a passeio, turistas. Olho em direção ao Rio da Prata e o céu está dividido em dois verticalmente: metade azul claro, metade azul escuro. Passando por todo o céu o laranja característico dos fins de tarde bonairenses. A saudade aumenta e começo a chorar. Penso que não posso deixar as meninas verem minhas lágrimas, afinal sempre fui a mais forte de nós cinco. Viro para trás, disfarçando as lágrimas que quase caem, para avisar do céu. Quando volto o rosto o céu já está todo azul escuro. É noite em Buenos Aires.

Acordo chorando. Abraço meu namorado. O sonho se autocorrige, mas é impossível corrigir a saudade.

Bilíngue

Sonhei que andava por uma rua que não era no meu país e quando encontrei uma pessoa vindo no sentido contrário ao meu lhe perguntei onde estava, e ela me disse que eu estava no centro.

Então lhe perguntei se faltava muito para eu chegar à estação de metrô mais próxima, e ela me disse que não mais do que há três quarteirões de onde estávamos.

Agradeci e ela me desejou boa sorte.

Não lembro do seu rosto.

Esta conversa se deu em inglês, e eu não sou fluente em inglês.