La Javanaise

Sonhei que estava em um apartamento, aonde parecia ter acontecido uma festinha. Estava tudo em preto e branco, como em um filme de época, e de algum modo eu sabia que estava no início dos anos 60. Vestia um mini tubinho preto com recortes brancos, sapatos de salto médio e cabelos curtos.

Era fim de festa, e eu estava cansada. Me encostei em algum sofá e alguém me cobriu com uma mantinha. Olhava as pessoas ao meu redor, já entediada, pensando em como iria para casa.

Derepente vi que alguém me observava. Com um drink em uma mão e um cigarro na outra estava de pé Serge Gainsbourg, com a mesma aparência que tinha na época de seu primeiro álbum. Fiquei sem graça e desviei o olhar. Quando tomei coragem olhei para ele novamente, e ele sorria.

Acordei apaixonada por ele. Como já me aconteceu inúmeras vezes.

Agressividade

Uma imagem:

Um homem gritando muito, apontando o dedo na minha cara: – E tira esse seu dedo da minha cara, não admito que apontem o dedo na minha cara. Não admito!

Espanhol

Não sei ao certo que lugar estou, mas sei que é algo como uma sala de faculdade. Ando para o lado de fora e em uma calçada encontro minhas duas professora de espanhol que mais me ensinaram ao longo da faculdade: Letícia Rebollo e Bethania Guerra. A Bethânia é dançarina de dança do ventre.

Olho para as duas, sei que estou feliz de vê-las. Começo a conversar, viro-me para a Bethânia e digo:

- Beta, sonhei contigo essa noite. Sonhei que você estava dançando dança do ventre. Você estava linda.

O sonho vem inteiro a minha cabeça e ela responde:

- Nossa, Estela, faz tanto tempo que não danço. Você sonhar com isso chega a me deixa triste.

Começamos as três a rir. A conversa continua, eu continuo lá, mas vou me afastando, como se deixasse meu corpo lá, falando e minha alma fosse embora.

Sinto falta da Bethânia. E a Letícia estava feliz como nunca vi.

Óculos

Uma imagem:

Uma mulher no ônibus, sentada de frente para mim, ela usava óculos de grau por baixo de seus óculos escuros e sorria.

Felicidade em sépia

Estávamos viajando, mas ao mesmo tempo o lugar era o morro atrás da minha casa em Miguel Pereira. Eu e Juliana. As duas viajando por dentro da mata que fica trás da minha casa. Íamos andando e vendo lindas árvores de copas verde escuro, árvores antigas, de copa baixa, tronco grosso. Subíamos muito, por uma trilha. Olhando pra frente víamos outro morro e o sol amarelado no alto do céu. Estávamos bem vestidas, maquiadas, parecíamos atrizes, mas estávamos passeando, o que tornava o lugar e a nós mesmas mais bonitas, por ser natural.
No alto da montanha um carrinho. Como um carrinho de montanha russa. Entramos, as duas, nos sentamos e descemos muito rápido pela trilha que tínhamos acabado de subir. O sol estava mais baixo, já se pondo no outro morro, tornando tudo amarelado, um tom sépia, o morro a frente estava escuro, o sol lindo e nós duas rindo, falando, admirando a vista que sabíamos que não dividiríamos com mais ninguém.
Ao chegar ao chão, descemos do carrinho. A árvore estava mais escura. Passamos por baixo de seus galhos, suas folhas, nos agachamos. Tudo era lindo, eu, ela e a paisagem rindo muito. Eu olhava a Juliana e me emocionava só em saber que havia dividido tudo aquilo com ela. Uma sensação incrível de beleza e amor tomou conta de mim.
Vejo nós duas indo embora, de longe, andando nos escorando de tanto riso e amor.

Agora, ao lembrar disso, meus olhos se enchem d’água com a sensação de frescor que o sonho me causou.

Três imagens

São três imagens:

1- Um besouro enorme, do tamanho de um passarinho, com a carapaça verde escura e a parte de baixo amarela e preta, como o peito de uma cambaxirra. Ele vem em minha direção e o espanto com um casaco.

2- Olho no espelho e me vejo, com os cabelos na frente do rosto e duas mechas rosas pendem da minha franja. Está bonito, eu gosto, me sinto feliz.

3- Entro no banheiro para tomar banho. A privada está entupida, quase transborda. Dentro da água suja há pedaços de fezes e lombrigas, muitas lombrigas se movendo. Sinto nojo, imagino quem tenha feito aquilo e saio do banheiro enrolada na toalha, pensando em quem vai poder limpar aquilo.

Gengivite

Estou no dentista, sentada na cadeira. Não enxergo muito bem, não sei de onde vem a luz, nem vejo o rosto de quem me atende. É como se estivesse uma penumbra, um pouco macabro, mas estou tranquila.

“Qual sua queixa?” O dentista pergunta, digo que não sei, que estou ali para uma revisão.

Ele começa a escovar meus dentes com força, a enfiar aparelhos na minha boca agressivamente, mas ainda assim me mantenho tranquila.

Minha gengiva começa a sangrar muito. Ele me manda cuspir, estou sentada numa cadeira normal e não na típica cadeira reclinada. Cuspo para baixo a espuma vermelha que sai da minha boca e sinto um pouco de nojo.

“Gengivite. Mais alguma queixa?”

Lullaby

Estava no Rio, e sabia disso pois comigo estavam várias pessoas, entre amigos e parentes, que são do Rio. Era em uma espécie de galpão, com paredes vermelhas e um pé direito muito alto, com algumas caixas empilhadas aqui e ali. Não sabia dizer se estávamos presos, ou nos refugiando, mas todos esperávamos algo acontecer, tensos. Era noite, mas ninguém dormia.

Então você veio e me abraçou, delicadamente pegou em minha mão.  Sem saber como agir, apenas abracei de volta e sussurrei algo sobre anjinhos e carneirinhos.  Você riu, e disse que tudo ficaria bem no final.

Acordei triste.

Prêmio

Eu e meu amigo e professor Caio estamos concorrendo a um prêmio da FUNARTE de criação literária. É o dia do resultado, estou nervosa, vejo o Caio de longe. Estamos em uma sala ampla, quase um salão de festa. Bem iluminado. Há uma televisão no alto, como um painel de aeroporto e é por ela que saberemos quem ganhou a bolsa.

Alguém me diz que já saiu no Diário Oficial o resultado do concurso. Saio correndo para ver na televisão quem são os ganhadores. E lá está:

1- ***********
2- ***********
3- Caio Meira, Romance

Choro de emoção. Choro muito. Corro pela sala. Somente os dez primeiros ganhadores teriam bolsa e lá está o poeta.

Sigo olhando os nomes na tela. Meu nome está em décimo segundo. Choro mais ainda. Eu estou ali. Estela Rosa.

Um dos dez primeiros colocados foi desclassificado, subo de posição. Estou em décimo primeiro. A esperança é enorme e a emoção me faz acordar chorando.

Espelhos

Estou me arrumando para ir trabalhar. Pego meu lápis de olho preto e começo a me maquiar sem olhar no espelho. O lápis está com a ponta mal feita, a madeira arranha meus olhos e tenho a sensação de que não estou me pintando. Vou até o quarto da minha irmã, abro uma gaveta da cômoda e acho um apontador cinza. Pego o apontador, aponto o lápis.

Caminho em direção a um espelho, com o lápis nas mãos. Olho para o espelho e volto a me maquiar. Mas o espelho está fosco, não consigo enxergar nada além de um vulto. Como se eu olhasse para uma superfície de aço. Tento me maquiar, mas mancho meus olhos. Penso: “outro espelho”.

Sigo para outro espelho. Olho e ele está quebrado em partes grandes, todas ainda presas a moldura. Consigo me enxergar em um dos fragmentos do espelho e, finalmente, pinto meus olhos de negro.

Vestido de Noiva

Chego na cozinha da minha casa em Miguel Pereira. A cozinha antiga, antes das obras, antes de ficar grande. As cores exatamente iguais, a posição dos móveis. Mas a aura do lugar é diferente. Minha mãe está sentada num banquinho, descascando alguma coisa.  Me aproximo dela, com um bloco nas mãos e digo: – Vou desenhar o meu vestido de noiva. Ela me olha e sorri.
Afasto os ímãs e apóio o bloco na porta da geladeira azul, a mesma geladeira de tempos atrás. Começo a desenhar meu vestido de noiva. Vou casar, não consigo saber com quem, mas quero ser eu a desenhar o vestido. Lembro nitidamente o desenho, feito de preto numa folha pequena do bloco roxo.

Pego a folha e entrego a minha mãe: – É este o modelo. Ela sorri de volta. Satisfeita.

Sputnik mon amour

Em meu sonho eu estava no quintal da minha casa no Rio de Janeiro. Era noite de Lua Minguante, que minguava a olhos vistos em uma velocidade sobrenatural. Fazia calor, e o céu começou a ficar com um azul que me faz lembrar da minha infância, de quando acordava bem cedo para ir à escola. Nisso vem até a mim um filhote de leão, dizendo que algo muito ruim está para contecer. Um antigo Deus resolvera se vingar da humanidade por todo mal que havia, e no próximo Janeiro não haveria ser vivo algum sobre a face da Terra. “Nem mesmo eu ou você”, ele diz, “não há nada que possamos fazer a respeito”.

De repente eu sou uma colegial nos anos 50, sendo rejeitada pelo rapaz que me levaria ao baile de formatura. Estou em um vestido branco de bolinhas de várias cores, moro em um penssionato para moças e antes de sair pego um cardigã azul claro, pois faz frio.

Agora estou em uma espécie de cápsula de fuga espacial, tentando fugir do apocalipse que se aproxima. Mas sei que algo deu errado, tudo fica escuro, e sinto que caí no mar. Queria que o filhote de leão estivesse ali, mas não sei o que aconteceu com ele. Está tudo quentinho e escuro, e só me resta aceitar que vou morrer.

Guerra e Paz

Andava pela rua, horário de almoço. Tranquila. Atravesso a rua e escuto um barulho ensurdecedor. Olho pro alto, pros últimos andares dos prédios da rua e vejo um helicóptero enorme. Ele voava dando rasantes nos prédios. Percebo que se trata de alguma operação do exército, mas isso não me inquieta, nem dá medo. Continuo andando enquanto o barulho fica cada vez mais alto. Olho outra vez pro céu e agora é um avião que passa. Tudo é cinza, meus olhos enxergam tudo cinza. O avião é enorme, não vejo tudo, só o bico que tem uma hélice, como os aviões de guerra. Sigo andando, sempre olhando pro alto do mesmo prédio. De repente reparo que o avião não está mais lá, mas sim um navio. Da mesma cor do avião, um navio no alto do céu, na quina do prédio, voando ensurdecedoramente em direção a um lugar que não sei onde fica.

Atravesso a rua, não vejo mais o alto do prédio. Um carro para ao meu lado. Dentro dele minha amiga Izabel e sua mãe. Me chamam, eu entro. Tudo muito perigoso e eu sempre muito calma.

Portas

Estou na casa do Felipe, meu amigo, sentada na cama, no quarto. Ele aparece na porta e me diz que posso ir tomar banho, se quiser, o banheiro é uma porta à direita.

Há três portas. Pergunto qual delas é o banheiro. Ele aponta para a menor porta, a mais estreita, azul clara e diz: Essa!

Abro a porta estreita azul clara. Me surpreendo ao encontrar outra porta estreita, amarela claro. Me lembro das portas de entrada americanas e abro, esperando o banheiro surgir. Há outra porta, translúcida e cinza. Olho para ele com uma expressão de interrogação e abro mais uma porta. Há outra porta, mais fina que as anteriores. É como se eu estivesse no País das Maravilhas. Olho outra vez para o Felipe que está encostado na parede. Estica o braço direito e abre a porta.

O Felipe abriu a última porta e então pude me banhar no banheiro estreito.

Je t´aime

Sonhei que estava na casa em que moro com meu namorado, e meu pai  nos fazia uma visita. Estava muito empolgada mostrando uns clipes do Serge Gainsbourg, que ele dizia gostar também, o que me empolgou ainda mais. Da janela, na varanda que não existe em nosso apartamento, meu namorado observava tudo muito orgulhoso, pois havia sido ele quem me apresentara a música de Serge.

Em dado momento olhei para meu pai, e lembrei que ele morrera há 15 anos atrás, e que provavelmente nunca gostara de Serge. Ele me sorriu, e eu sorri de volta. Sabia que a qualquer momento aquilo acabaria, e ele morreria novamente. então apertei o play do DVD, que exibiu o clipe de “Initials BB“.

Impotência

Sonhei que estava em uma cidade estranha, acompanhada de uma mulher que não conheço. Eu a via fazendo coisas ruins, como roubar uma boneca de um homem usava para fazer performances de rua. Sabia que ela havia feito isso de maldade e quando ameacei denunciá-la, ela fez descarrilhar duas carroças ciganas que acabaram por descer uma ladeira, indo de encontro a barracas de uma feira livre. Muita gente se desesperava com o caos e as perdas, e assistindo isso, também me desesperei e comecei a chorar. E ela só me olhava sorrindo de forma macabra. Ainda assim procurei um policial para prendê-la, mas ele não acreditou em em mim.

E continuei acompanhando-a, contra a minha vontade, era como se eu estivesse presa a ela, e nada pudesse fazer.

Escargots x Gremlins

Sonhei que estava no quintal da casa aonde cresci. Eu e meu irmão observávamos um caracol enorme, talvez um escargot caminhando lentamente bem de frente para a escada que vai até o portão da frente. No que ele chegou a uma poça d’água, e com isso, como acontece com os Gremlins, começou a se multiplicar,  dando origem a dezenas de escargots.

Apavorados corremos para dentro de casa, relatamos o ocorrido para minha mãe que imediatamente começou a fazer malas, nos mandando fazer o mesmo.

E lá estávamos nós, colocando nossas coisas em malas Louis Vuitton, iguaizinhas a esta aqui, para fugirmos de escargots nojentos.

World’s end

Sonhei com a casa de minha mãe. Estávamos na sala junto com a minha irmã, que chorava abraçada a mim. O mundo ia acabar a qualquer momento e sabíamos disso, por isso ela chorava. Bem no fundo eu estava feliz por tudo terminar assim, ao lado delas, eu as amava mais do que tudo. Minha mãe observava tudo calada, com uma expressão muito serena, num misto de resignação e carinho.  Não me perguntei aonde estariam meu irmão, meu padrasto, meu namorado ou o noivo de minha irmã. Era um momento só nosso, só de mulheres.

Então houve um estrondo e tudo escureceu. Um calor invadiu o ambiente. Não ouvia nada, mas sentia que ainda abraçava minha irmã. E pensei “então é assim que tudo acaba”, sentindo nossos corpos flutuando no meio daquele calor escuro.

Acordei com medo de que quando o mundo acabasse de verdade, eu estivesse longe demais para chegar até elas.

Colcha amarela

É tudo muito difuso, não há muitos contornos. Nada facilmente identificável. Sei que estou num grande salão, há mesas de ferro, essas mesas de bar, espalhadas pelo salão. Pessoas sentadas, sorrindo, falando alto, burburinho estranho, não posso distinguir nada do que elas dizem. Eu e várias pessoas, andamos juntos, por entre as mesas, desviando de pessoas e  cadeiras vazias.

Mais a frente vejo um palco. Não é alto, nem sequer há uma escada para subir.

Acontece alguma coisa no chão, em frente ao palco. Subo no palco, com ajuda de algumas pessoas que estão comigo. Sento e observo o que acontece. A verdade é que nada vejo, as coisas acontecem e tenho uma névoa nos olhos, só consigo ver a movimentação dos que estão perto de mim.

São todos conhecidos, mas não sei de onde.

Levanto do palco e me vejo andando em direção a uma porta dupla de ferro. Me vejo abrir a porta e sumir.

Olho para a frente. Atrás de mim está a grande porta de ferro. Estou enrolada numa colcha amarela, felpuda, parecida com uma colcha antiga da minha mãe. Estou enrolada e percebo que a colcha arrasta no chão, seguro uma parte entre as pernas e tomo cuidado para que não arraste mais.

Ando em direção ao palco. Espero ver o Tico, mas ele não está lá. “Como sempre foi embora”, penso. Ao lado do palco, sentado no chão, há um homem. Não conheço sua fisionomia, mas o sentimento que tenho por ele é tão agradável e de familiaridade que me sinto tranquila e digo: “Você ainda está aqui?” e ele responde, tímido:  “E por que eu não estaria?”.

Me lembro nitidamente do rosto dele, de sua posição, de suas roupas. Estava sentado, abraçando as pernas, com um casaco verde escuro. Parecia ser chileno ou boliviano, cabelos médios, escorridos pelo rosto, bonito.

Acordo.

Pela manhã, já no ônibus, olhando pela janela, desvio o olhar para o ponto de ônibus e lá está ele. Arrepio-me inteira, pés a cabeça. Isso nunca havia acontecido comigo. O ônibus vai embora e ele fica:  meu primeiro sonho materializado.

Três dias

Estava em um ônibus, saindo do Túnel Sta. Bárbara, quando escuto tiros e resolvo me abaixar. Um dos disparos acerta o centro da minha cabeça. Sinto queimar e arder o local onde o tiro atingiu, mas me mantenho tranquila. Pergunto a alguém o que devo fazer e me respondem: Olha, desse jeito que está aí, você não vai morrer agora, provavelmente você morre daqui a três dias.

Continuei tranquila, ainda que surpresa com a resposta. Não pensei em hospital, não pensei em salvar minha vida. Peguei o telefone e liguei para alguém e disse: Ei, vamos fazer alguma coisa, aproveite meus últimos instantes de vida, morro daqui a três dias.

Imcompreensível

Sonhei alguma coisa feliz, não consigo me lembrar o quê, mas me deixou triste.

Costurando

Estava com a minha gata no colo. Ela estava com a barriga aberta, um desespero. Não sangrava, mas eu sabia que alguma coisa tinha que ser feita e rápido. Só eu poderia resolver aquilo. Peguei uma agulha, eu tinha que costurar a barriga da minha gata antes que ela morresse. Estava em minhas mãos. Agulha, linha e de repente ela começa a sangrar. Como uma vez aconteceu na realidade ela coloca pra fora uma parte do útero e eu começo a chorar: Mãe, aconteceu de novo e desse jeito eu não posso costurar.

Liguei pra casa desesperada. Está tudo bem, a velhinha continua lá com sua asma de bolas de pelo.

Vinte e um

Sonhei que eu estava na sua casa. Sentada na sua cama e você, sentado na cama do seu irmão. Eu te olho e você me responde com um olhar de ternura. Tenho em minhas mãos um caderno, do tamanho de um caderno pequeno, com as folhas decoradas. Há flores roxas, rosas sobre uma moldura amarelada. As folhas não tem linhas. Há uma amiga olhando, de longe, cuidando de nós dois.

Pego uma caneta e escrevo uma frase no caderno. Arranco a folha e te entrego. Você vira a folha, o outro lado não tem desenho, é uma folha branca. Você escreve nas costas da folha e me devolve. Eu leio, sorrio pra você, dobro a folha e escrevo em outra folha outra frase que não me lembro. Como num ritual, você lê, escreve nas costas da folha e me entrega. Incomodada com esse ritual, pego outra folha e escrevo: “Chega de palavras, eu quero um beijo”. Você pega o papel, lê, analisa a frase. Corta a folha ao meio e escreve alguma coisa que não dá tempo d’eu ler.

Acordo com uma saudade sufocante de você.

Percebo que hoje é dia vinte e um e penso que, como sempre, você continua me dando meias respostas em folhas de papel partidas ao meio.

O Fim do Mundo e a Livraria

Não costumo ter sonhos inquietos como o Pacha. Meus sonhos são sempre calmaos e com pouca aventura. Na maioria das vezes são contemplativos.

Mas hoje eu vi um avião gigantesco voando sem a cabine dos pilotos. E soube que aquilo era a marca do fim do mundo. Todos começaram a correr. O mundo é novo, com algumas coisas muito modernas, como esse avião. Mas ele está destruído e vai cair. Leva tempo para cair e quem sou eu para ficar ali olhando isto acontecer? Eu sou medrosa, seguro na mão do homem e saio correndo, abaixo entre os escombros de alguma outra destruição que não sei qual é. Calmamente, me ponho a esperar um elevador, como se minha sorte estivesse ali dentro. Mulheres, homens, conversas de despedida. É tudo bem cinza e o avião acaba de cair.

Desço no ponto de ônibus da São Francisco Xavier e vejo algumas coisas no chão. O homem limpa o chão e tem uma máquina fotográfica. O fim do mundo já não me importa. Eu pego uma chave e começo a limpar o piche da calçada. Há piche grudado numa raiz de árvore. Faço força, esfrego, raspo o piche. Minhas mãos estão sujas.

Antes de descer do ônibus estive em uma livraria. Estava vazia, sem nenhum atendente. Andava de mãos dadas com o homem que fugiu comigo do fim do mundo. Para mim, a salvação era a livraria. Saí a procurar um GuíaT, um GuíaT 2010. O fim do mundo está próximo, eu sei, mas só me importo com os livros e em não ficar perdida. Ando pelos corredores da livraria, pergunto a um guarda onde fica o jornaleiro mais próximo. Percebo que a livraria é uma cidade. Sigo as instruções, encontro o jornaleiro, pego o GuíaT e continuo na livraria. Afinal de contas, lá é o mundo, lá é a cidade e, é muito provável, que o avião se choque contra ela em três, dois, um…

Arco-íris móvil

Chove muito. Muito mesmo. Da minha varanda olho pro morro em frente a minha casa. Ele é lindo, muitas árvores, mato, tudo muito verde. Tenho certeza de que é verão e a chuva me deixa feliz. O Tico está na sala da minha casa, vendo tv, conversando com meus pais. Não sei bem ao certo porque o barulho da chuva é muito alto.

De repente vejo um arco-íris. Ele está praticamente reto e isso é muito estranho. É como se ele fosse uma linha sobre a montanha. Grito pelo Tico, ele não escuta de primeira. Enquanto espero ele chegar o arco-íris começa a se mover, se curvar, se tornando o que de fato é um arco. Mas ele não pára. Continua se curvando até quase ficar horizontal.

Quando o Tico chega o arco-íris está quase vertical. Ele olha, me olha e diz com a sua felicidade de sempre: “Caramba, mô, que legal!”

Tiroteios aterrorizam a Zona Norte nessa manhã de sábado

Faz uma semana que esses tiroteios chegaram, ando pelas ruas tensa, sem saber que ônibus pegar e quando sentir medo. Pelo terror de passar por uma blitz da Força Nacional na noite de quinta-feira, escutar helicópteros passando sobre a minha casa, tive um pesadelo hoje. Acordei suando.

Dentro do ônibus vejo os carros voltando em marcha-ré de uma curva que me leva até a outra rua por onde tenho que obrigatoriamente passar. Começo a gritar e peço ao motorista do ônibus abra as portas. Pessoas andam abaixadas pelas ruas, mas ainda não tivemos tempo de aprender a andar nos arrastando como em cenas de filme de guerra. Uma senhora se esconde atrás de um carro, exatamente igual a foto de ontem da capa d’O Globo. Desço do ônibus e ando em direção a uns prédios, casas, garagens. Uma bala cai no chão, amassada, ainda que desesperada me abaixo e pego o tão falado projétil. Guardo no bolso e continuo correndo. Uma mulher me grita e diz que é para eu me esconder dentro da garagem da casa dela. Entro, olha pelas janelas da sala e vejo a imensa favela tão próxima que sinto um desespero e corro para o outro lado. De dentro da casa ela me diz: é mais seguro aqui, quanto mais perto, menos tiros. Ela me oferece um copo d’água, rejeito porque pra mim os tiros vem como água, num barulho ensurdecedor. Não sei onde estou, vou chegar atrasada no trabalho, minha mãe precisa saber que a amo, meus amigos e esses tiros, ninguém sabe o que aconteceu nessa manhã de sábado em plena Zona Norte. Sento numa cadeira e choro.

Acordei suando. Abri a janela pros tiros e voltei a dormir.

Na ladeira

Estava na rua, andando sem rumo. Me dei conta que estava perto da sua casa. Ali, bem ali, numa dessas ladeiras do bairro Humaitá, bem onde você não mora. Resolvi subir pra te dar um oi, afinal de contas, não te vejo há tanto tempo. Começo a subir a ladeira, é muito íngreme, mas lá de baixo te vejo com uma vassoura na mão, varrendo a entrada do seu prédio. Você, você tão dourado refletindo as sombras da copa da árvore que te fazia varrer a calçada. Sorri discretamente, você me viu e sorriu indiscriminadamente. Um sorriso imenso, quase do tamanho da sua dedicação ao limpar as folhas que teimavam em cair. Continuo subindo a ladeira olhando pra você que me espera de braços abertos. A ladeira não me deixa subir, é como se ela ficasse cada vez mais íngreme quanto mais me aproximo. Caio de costas no chão, você ri pra mim e me dá a sensação de que eu consigo. “Vem, você consegue”. Eu insisto e você me dá a mão. A gente se olha e você me abraça. Me leva pra dentro do prédio. Ela está lá, de novo, como sempre esteve. Mas não sinto raiva. Olho e comprovo que as minhas suspeitas sempre estão certas, assim como está certo você ser dourado como o sol.

Vou embora. De mãos dadas com duas amigas me perco por corredores de um shopping muito confuso. Já te esqueci, já não sou mais do mesmo espaço de sonho que você. Procuramos por uma loja de coisas masculinas, mas não sabemos o nome. Sempre rindo constatamos que estamos perdidas. É divertido estar perdida num lugar que tem placas indicando a saída. As cores são claras, as vitrines mostram coisas de casa. A loja não chega nunca. Acordo com o barulho do seu sorriso nos meus ouvidos. Não, eu não subiria mais esta ladeira por você.

As cobras

Primeiro sonhei que te encontrava, perguntava como você ia, como estava a vida, afinal de contas os anos passam e eu continuo me importando. Enquanto sua cara se desvanecia, eu ouvia sua voz me dizer, lentamente: “- só estarei bem, meu amor, quando estiver, definitivamente, ao seu lado.”

No dia seguinte sonhei que andava no fusca do meu tio que morreu faz dois anos. Não sei ao certo se é ele quem dirige, mas minha irmã e minha mãe estão no banco de trás, junto comigo. A janela do motorista está aberta pela metade e nós andamos por uma estrada de terra. A estrada se parece a uma estrada que leva a antiga casa do meu tio, em Miguel Pereira. Eu, dentro do carro, olho pra estrada que passava. Envolta em capim sujo de poeira. Envolta na estrada suja de poeira uma cobra. Para ser mais específica minha mãe grita: “- uma cascavel”. Olho para o que resta visível da cobra e vejo seu rabo de chocalho. Entre risadas continuamos no caminho do carro. Como se tivesse ouvido as risadas, de repente, salta de dentro do capim para a janela do motorista. A cobra. Certeira para dentro do carro. Todos paralisados, eu me mexendo. A cobra vem, certeira, e morde minha mão direita. Minha mãe grita para fecharem o vidro. A cobra fica esmagada ao meio. Minha irmã grita que o veneno dessa cobra faz o corpo gangrenar. E eu, em choque, olho as duas marcas roxas nas costas da mão. Como viver sem minha mão direita?

Beira mar

A sala do meu apartamento dava prum condomínio lindo. Palmeiras, ruazinhas, canteiros com flores. Meu andar era um dos últimos, prédio gigante, o dia estava lindo, sol, céu azul, poucas nuvens. A janela da minha sala era toda de vidro, como se fosse um panorama, meu apartamento um aquário com uma vista lindíssima. Era próprio, o apartamento. Um lado para o condomínio, o outro para a praia do Leblon. Aluguel incrivelmente barato: R$400,00. Condomínio justo para tudo o que tinha disponível: R$700,00 para um prédio no Leblon com academia, piscina e pessoas bonitas.

Algumas pessoas estavam comigo, não me lembro quem, mas eu tinha visitas.

De uma hora pra outra o mar começa a bater. Ondas cada vez mais altas. Eu, no alto de meu prédio, janelas abertas, assisto ao espetáculo das ondas que atingem a minha janela, toda de vidro. Realmente um aquário de ar. Tudo tomado por ondas azul escuro, muita água, fico desesperada, penso que o vidro poderia quebrar, as outras pessoas achando tudo normal e alguém me lembra de que estamos muito alto e estamos a salvo. Me tranquilizo.

O tempo melhora. As ondas voltam a ser azul claro, tranquilas, sem muita espuma. Chego perto da janela e olho para o condomínio abaixo: tudo normal. As ruas, as pessoas, o chão molhado com poças refletindo o sol que voltou a brilhar.

Pego o elevador (são dois elevadores, um do lado do outro) com algumas pessoas, outras entram no outro elevador.

Pula.

Estou parada, rosto ao vento, sei que é perto do meu prédio. Tenho um cigarro de folha de caderno nas mãos, está aceso. Trago profundamente e solto a fumaça pelo nariz. Repito muito calmamente a cena, várias vezes. Meu corpo é tomado por um calor delicioso que vem do cigarro, o tempo é frio, beira mar. O cigarro acaba e penso: “Quero fumar de vez em quando. Marlboro, filtro branco de preferência. Mas Marlboro não vende a varejo… Vou ser obrigada a comprar um maço e guardar na gaveta do meu criado mudo. Tomara que ninguém veja.”

Sensações

Não tenho tido muitos sonhos grandes, com longas histórias e tramas essas semanas. O que acontece são sonhos pequenos, mas com sensações muito marcadas.

Um deles se tratava do seguinte:

- Estou no metrô com minha irmã. Estamos conversando animadamente algo que não consigo gravar o que é. O metrô para em uma estação e segue o caminho. Percebo que ele pegou o trilho errado, pegou o trilho do metrô que vem em sentido contrário. Tenho a nítida sensação de que vamos bater, nos chocar, um desastre, mas as pessoas não notam, ainda que o maquinista pare o carro e dê marcha-ré. Ele volta numa velocidade grande. A sensação é horrível, a certeza de morte me deixa pasma. Acordo.

Os outros foram de ontem pra hoje.

- Duas pessoas me entregam um pacote pequeno e muito bem embrulhado, assim, embrulhado como se ninguém mais pudesse saber o que há ali dentro. Me dizem que ninguém pode me ver com esse pacote, mas que só eu poderia ficar com ele, o que está ali dentro tem tudo a ver comigo e só eu poderia guardar com o cuidado necessário. “Corra”, me dizem. Escondo o presente e corro. Corro muito, com uma sensação incrível de felicidade e desespero. Corro, subo uma montanha e corro para descer, correndo sem parar. Resolvo parar no alto de uma rua. Abro o pacote. Acordo.

Lembrei mais um:

- Estou numa montanha. É Miguel Pereira e ao lado da montanha está minha casa, a casa onde estou dormindo enquanto tenho este sonho. Olho fixamente para as montanhas e tenho algumas fotografias dessas montanhas nas mãos. Estou com uma grande amiga e ela olha para as fotos e para a paisagem. Ficamos muito tempo comparando as fotos e as montanhas, para ver se muita coisa mudou. De fato só as estações mudaram, tudo continua igual. O orgulho me toma e acordo rindo.

O outro foi o mais engraçado… Porque sonhei que vinha aqui contar essas sensações e o Pacha tinha publicado um sonho incrível, todo fragmentado. Mais uma vez não consegui guardar nada na memória, mas o orgulho de mais um texto no blog e a frustração de não poder escrever tomaram conta do sonho. Acordei sem saber se realmente ele havia postado alguma coisa. É, era sonho, ele não postou.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.